13 de julho de 2026

O sonho de resolver tudo com infraestrutura de IA nasce morto.

Onde a lógica encontra o humano que decide.

Se nem as Big Techs estão acertando a própria infraestrutura de IA, por que a sua empresa acertaria? A gente está vivendo, neste exato momento, a maior aposta de capital da história recente. Bilhões de dólares das maiores empresas do mundo, apostando que a IA resolveria tudo: atendimento, decisão, a operação inteira de uma empresa rodando sozinha. O maior sintoma disso foram os layoffs recordes dos últimos anos: só em 2025, mais de 155 mil demissões foram atribuídas à IA, cinco vezes mais que em 2024. A Amazon cortou 14 mil cargos corporativos em outubro de 2025, a maior rodada de demissões da história da empresa, chamando essa geração de IA de "a tecnologia mais transformadora desde a internet".

E agora a gente entrou num momento de medo e incerteza. Muita gente falando em bolha. Tem investimento que, quando você puxa o fio, parece só estar circulando entre as próprias big techs: uma investe na outra, que compra chip da outra, que investe de volta. E a experiência prática desses layoffs em massa apostando na IA se mostrou um erro na maioria dos casos. O exemplo mais público é o da Meta: depois de cortar 8 mil vagas e realocar outras 7 mil pra iniciativas de IA (cerca de 20% da força de trabalho global), o próprio Zuckerberg admitiu, em memorando interno, que a empresa "cometeu erros e quase certamente cometerá mais". Os agentes de IA não avançaram no ritmo que a liderança esperava, e a aposta, nas palavras dele, "ainda não deu os frutos esperados".

Como não há nada de novo debaixo do sol: nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Fizeram alarde demais com a promessa de que a IA resolveria todos os problemas do mundo, e a gente viu que, na realidade, não resolve. Em vários casos, criou mais problema do que resolveu. E eu não estou falando de teoria. Estou vivendo isso agora, neste exato momento, numa implementação que fiz com um cliente que foi bem-sucedida, mas que o dia a dia me mostrou desafios que eu não considerava até então.

O sistema funciona. A IA está fazendo o trabalho que foi desenhada pra fazer. Mas eu aprendi, na prática e do jeito mais caro, uma coisa que o conceito de "skin in the game" explica bem: não basta a tecnologia resolver o processo pra qual foi desenhada. O que decide se aquilo sobrevive é se quem fica responsável por operar no dia a dia (a pessoa, o time) realmente veste a camisa da mudança. E isso não é só sobre quem está no operacional: a liderança vai precisar repensar a cultura da própria empresa a partir das mudanças de processo que a IA traz. Porque não se trata de uma tecnologia nova, tipo um computador mais potente ou um equipamento novo na linha. É uma quebra de paradigma: troca o jeito antigo de fazer uma tarefa por um formato que só funciona com adesão voluntária de quem fica operando.

Todo mundo que já prometeu uma grande mudança pra próxima segunda-feira (uma dieta, começar na academia) sabe do que eu estou falando. Mudança de hábito é a coisa mais difícil que existe. Ponto. Um sistema tecnicamente perfeito, com resultado comprovado, pode morrer na mão de uma equipe que não aderiu, não por má vontade necessariamente, mas porque a cultura antiga que ainda prevalece puxa mais forte que qualquer ferramenta nova. Mesmo quando essa cultura nunca foi construída de forma intencional: só sobrou ali, por liderança fraca de quem está na frente do negócio.

A tecnologia troca de nome a cada década. A dificuldade de mudar um hábito, não.